
No alto da montanha rosada, em meio a milhares de miosótis contrastando com o sol e verde escuro dos pinheirais, ficava o Chalé de Pedra. No telhado de ardósia no meio dos musgos, várias florzinhas desafiavam o vento. E embaixo das janelas brancas, os gerânios se amontoavam nas floreiras. O caminho de pedras levava ao penhasco e próximo da mureta ia margeando até encontrar o banco feito de pedra e velhos mordentes de trem.
Ao final do caminho virando à esquerda e subindo em direção ao Chalé, ficavam todas as espécies de árvores nativas da região tapando quase por completo a casa. Mesmo o terreno sendo íngreme era agradável andar em meio aos seixos, pois impatiens de diversos tons quebravam a monotonia da trilha.
Subindo mais alguns metros, já dava para ver por entre as árvores o imenso jardim repleto de topiaria e tufos de jacintos que haviam conhecido dias melhores.
Cansada da caminhada e tendo Candy sempre junto a si, Sally sentou-se na grama e apoiando o corpo nos cotovelos fechou os olhos imaginando ver o impossível. As imagens vinham e desapareciam. Com a cabeça voltada para o alto e o desejo febril de prender estas imagens, elas apareciam para logo depois sumirem.
Levantou-se da relva e começou a caminhar pela a alameda lentamente até chegar bem perto do penhasco. Debruçada na murada de pedra, ficou olhando enternecida a paisagem. Via cerros, montes e montanhas entre pinheirais e com algumas nuvens baixas, davam a impressão de um mar revolto. Como adorava àquele lugar. Mesmo quando criança era entre estes pinheiros, álamos e tuias centenárias que correndo e brincando sentia-se feliz. Ia pelas trilhas com seu sapato de solado grosso e meias de lã coloridas, quase sempre com furo no dedão dos pés em desabalada carreira rumo à pequena cascata que ficava vizinha ao desfiladeiro da Montanha Rosada. Sally enfiava por entre os furos do chapéu de palha, várias florzinhas e ramos de trepadeiras para passar despercebida aos pássaros. Com um macacão xadrez verde, gostava de pensar que fazia parte das ramagens e árvores à sua volta.
Foi seu melhor presente de treze anos o binóculo dado por Murdock. Não existia nada igual poder observar àquela enormidade de pássaros e pequenos animaizinhos que ficavam à espreita quando ela passava. À tardinha quando voltava para casa, com o binóculo preso ao pescoço e os braços com diversas flores encontradas pelo caminho, ia direto à velha estufa. Colocava cada espécie em um recipiente e os amassava bem. De repente despertou do devaneio e ao virar-se fitou novamente o banco de pedra junto à trepadeira de glicínias. Estava vazio. Agora iria ser sempre assim.
Sem pressa, com os ombros caídos e o semblante triste foi caminhando lentamente em direção ao Chalé, onde Mirtes sem demora iria servir o chá. Há muito esquecera qual havia sido o dia em que Mirtes não servira o chá pontualmente às cinco horas da tarde. Nem por ocasião da morte de Jonathan, ela esquecera. Com passadas rápidas e segurando-se em alguns galhos e troncos de pinheiros que encontrava pelo caminho ia seguindo para casa. Receava que seu atraso provocasse por parte de Mirtes a debandada de todos à sua procura.
Entrou pela porta da biblioteca que dava para o jardim. Estava exausta, assim cortaria caminho para chegar até o gabinete onde, com toda certeza a bandeja do chá estava servido.
- Onde a senhora estava? Já estava preocupada, não gosto de vê-la sair para àqueles lados da murada de pedras. Ali é perigoso e Lucas nem sempre está naquela parte do parque, disse Mirtes.
- Fui até o banco de pedra, o jardim parece bem abandonado naquela área e mesmo assim Lucas diz que não necessita de um auxiliar. Acho que vou falar com Spencer sobre isto.
- O problema é que ele se preocupa mais em colecionar garrafas de Bourbon do que podar as cercas e trepadeiras. Têm locais que o jardim está um mato.- Retrucou ferozmente Mirtes
- Onde a senhora gostaria de tomar o chá? Quis saber Mirtes.
- Pode ser aqui mesmo, o dia está bonito e é bom ver o jardim aqui de dentro, disse Sally. Não era sem razão que Jonathan ficava horas sem fim, nesta peça. Ali era seu refúgio, ficava escrevendo e fumando seu cachimbo por um tempo infinito. Apesar da grande quantidade de tuias, pinheiros e arbustos em volta da casa, ali não deixava de ser um local pela parte da tarde, bem ensolarado. Jamais sentíamos calor, pois como dizia Jonathan, a aragem que vinha dos picos gelados das montanhas à esquerda do Chalé, deixava a temperatura sempre amena. Nos momentos de devaneio, olhava pela janela e seguidamente planejava algum projeto novo para o jardim. Assim foi com a fonte, a coleção de bichos de topiaria e quase no final, o caminho de cerca cujo centro dava em um banco de pedra. O difícil, era encontrar o caminho de volta pois, os visitantes na maioria das vezes se perdiam. Seguidamente era ele mesmo que podava e semeava as mudinhas da estação. Achava que Lucas estava velho e já não tinha forças para cortar os galhos das trepadeiras. Repentinamente saiu do devaneio para a realidade devido ao ruído estridente do telefone.
- Pode deixar, Mirtes, que eu mesma atendo, falou Sally. O telefone ficava a poucos metros de onde estava e Mirtes se debruçava em cima da bandeja quase derramando o chá, pois como Sally havia notado, ela estava novamente sem os óculos.
-Tia Sally? Como está? É Mary. Achei uma ótima idéia passar estes feriados de páscoa com você. Estou com muita saudade sua e fico preocupada de vê-la sozinha e tão distante de nós. Tenho grandes novidades para contar. Fala para Mirtes ir preparando a despensa pois vou com uma receita de trufas de chocolate que é um estouro. Estou craque no preparo e comigo estou levando uma enorme caixa de bombons recheados “made by Mary”. Titia, estou muito entusiasmada, acho que finalmente encontrei minha vocação. Quem diria, justamente na cozinha!
- Querida, que bom te ouvir! Quando espera chegar?
- Amanhã, pelo trem das sete e meia da noite, disse Mary. Espero que não esteja tão frio por aí, porque não pretendo levar muita bagagem.
- Não, já nevou bastante e o que temos agora é um vento, ás vezes um pouco forte, disse Sally.
- Ok, Titia! Avisa, então, Mirtes para abastecer a despensa. Amanhã à noite nos veremos! E ouviu-se um clique do outro lado da linha.
Mary não havia esperado nem que Sally perguntasse como faria para chegar até o Chalé. Havia na estrada ainda muito gelo e ficava perigoso dirigir assim. Com certeza Mirtes iria se opor ao vê-la pegar o carro para buscar Mary na estação. Iria falar com o Sr. Duncan caso necessitasse trazer Mary para o Chalé. Gostava de Mary, afinal era sua única sobrinha, filha de Rachel, sua irmã mais nova. Existia também Gordon, mas fazia algum tempo que não o via, mesmo porque da última vez se encontrava em uma enrascada, motivo pelo qual logo precisou desaparecer. O final de semana estava prometendo. Precisava ficar só. Mas era o que menos acontecia nestas últimas semanas. Tentavam por todos os meios tirarem-na de casa, ou para ir ao cinema mais próximo, ou para assistir à última peça de teatro com recomendação garantida pelos críticos de plantão. Sem falar em alguns amigos que ficam insistentemente telefonando para, de um modo simpático saber se não precisava de nada ou mesmo sugerir passeios, visitas ou até viagens inoportunas. De um jeito educado, conseguia se safar de muitos dos convites, mas a lista de desculpas há muito havia acabado e agora já não atendia mais o telefone, delegando à Mirtes esta tarefa que de um modo satisfeito se comprazia de impedir não só.
Ao final do caminho virando à esquerda e subindo em direção ao Chalé, ficavam todas as espécies de árvores nativas da região tapando quase por completo a casa. Mesmo o terreno sendo íngreme era agradável andar em meio aos seixos, pois impatiens de diversos tons quebravam a monotonia da trilha.
Subindo mais alguns metros, já dava para ver por entre as árvores o imenso jardim repleto de topiaria e tufos de jacintos que haviam conhecido dias melhores.
Cansada da caminhada e tendo Candy sempre junto a si, Sally sentou-se na grama e apoiando o corpo nos cotovelos fechou os olhos imaginando ver o impossível. As imagens vinham e desapareciam. Com a cabeça voltada para o alto e o desejo febril de prender estas imagens, elas apareciam para logo depois sumirem.
Levantou-se da relva e começou a caminhar pela a alameda lentamente até chegar bem perto do penhasco. Debruçada na murada de pedra, ficou olhando enternecida a paisagem. Via cerros, montes e montanhas entre pinheirais e com algumas nuvens baixas, davam a impressão de um mar revolto. Como adorava àquele lugar. Mesmo quando criança era entre estes pinheiros, álamos e tuias centenárias que correndo e brincando sentia-se feliz. Ia pelas trilhas com seu sapato de solado grosso e meias de lã coloridas, quase sempre com furo no dedão dos pés em desabalada carreira rumo à pequena cascata que ficava vizinha ao desfiladeiro da Montanha Rosada. Sally enfiava por entre os furos do chapéu de palha, várias florzinhas e ramos de trepadeiras para passar despercebida aos pássaros. Com um macacão xadrez verde, gostava de pensar que fazia parte das ramagens e árvores à sua volta.
Foi seu melhor presente de treze anos o binóculo dado por Murdock. Não existia nada igual poder observar àquela enormidade de pássaros e pequenos animaizinhos que ficavam à espreita quando ela passava. À tardinha quando voltava para casa, com o binóculo preso ao pescoço e os braços com diversas flores encontradas pelo caminho, ia direto à velha estufa. Colocava cada espécie em um recipiente e os amassava bem. De repente despertou do devaneio e ao virar-se fitou novamente o banco de pedra junto à trepadeira de glicínias. Estava vazio. Agora iria ser sempre assim.
Sem pressa, com os ombros caídos e o semblante triste foi caminhando lentamente em direção ao Chalé, onde Mirtes sem demora iria servir o chá. Há muito esquecera qual havia sido o dia em que Mirtes não servira o chá pontualmente às cinco horas da tarde. Nem por ocasião da morte de Jonathan, ela esquecera. Com passadas rápidas e segurando-se em alguns galhos e troncos de pinheiros que encontrava pelo caminho ia seguindo para casa. Receava que seu atraso provocasse por parte de Mirtes a debandada de todos à sua procura.
Entrou pela porta da biblioteca que dava para o jardim. Estava exausta, assim cortaria caminho para chegar até o gabinete onde, com toda certeza a bandeja do chá estava servido.
- Onde a senhora estava? Já estava preocupada, não gosto de vê-la sair para àqueles lados da murada de pedras. Ali é perigoso e Lucas nem sempre está naquela parte do parque, disse Mirtes.
- Fui até o banco de pedra, o jardim parece bem abandonado naquela área e mesmo assim Lucas diz que não necessita de um auxiliar. Acho que vou falar com Spencer sobre isto.
- O problema é que ele se preocupa mais em colecionar garrafas de Bourbon do que podar as cercas e trepadeiras. Têm locais que o jardim está um mato.- Retrucou ferozmente Mirtes
- Onde a senhora gostaria de tomar o chá? Quis saber Mirtes.
- Pode ser aqui mesmo, o dia está bonito e é bom ver o jardim aqui de dentro, disse Sally. Não era sem razão que Jonathan ficava horas sem fim, nesta peça. Ali era seu refúgio, ficava escrevendo e fumando seu cachimbo por um tempo infinito. Apesar da grande quantidade de tuias, pinheiros e arbustos em volta da casa, ali não deixava de ser um local pela parte da tarde, bem ensolarado. Jamais sentíamos calor, pois como dizia Jonathan, a aragem que vinha dos picos gelados das montanhas à esquerda do Chalé, deixava a temperatura sempre amena. Nos momentos de devaneio, olhava pela janela e seguidamente planejava algum projeto novo para o jardim. Assim foi com a fonte, a coleção de bichos de topiaria e quase no final, o caminho de cerca cujo centro dava em um banco de pedra. O difícil, era encontrar o caminho de volta pois, os visitantes na maioria das vezes se perdiam. Seguidamente era ele mesmo que podava e semeava as mudinhas da estação. Achava que Lucas estava velho e já não tinha forças para cortar os galhos das trepadeiras. Repentinamente saiu do devaneio para a realidade devido ao ruído estridente do telefone.
- Pode deixar, Mirtes, que eu mesma atendo, falou Sally. O telefone ficava a poucos metros de onde estava e Mirtes se debruçava em cima da bandeja quase derramando o chá, pois como Sally havia notado, ela estava novamente sem os óculos.
-Tia Sally? Como está? É Mary. Achei uma ótima idéia passar estes feriados de páscoa com você. Estou com muita saudade sua e fico preocupada de vê-la sozinha e tão distante de nós. Tenho grandes novidades para contar. Fala para Mirtes ir preparando a despensa pois vou com uma receita de trufas de chocolate que é um estouro. Estou craque no preparo e comigo estou levando uma enorme caixa de bombons recheados “made by Mary”. Titia, estou muito entusiasmada, acho que finalmente encontrei minha vocação. Quem diria, justamente na cozinha!
- Querida, que bom te ouvir! Quando espera chegar?
- Amanhã, pelo trem das sete e meia da noite, disse Mary. Espero que não esteja tão frio por aí, porque não pretendo levar muita bagagem.
- Não, já nevou bastante e o que temos agora é um vento, ás vezes um pouco forte, disse Sally.
- Ok, Titia! Avisa, então, Mirtes para abastecer a despensa. Amanhã à noite nos veremos! E ouviu-se um clique do outro lado da linha.
Mary não havia esperado nem que Sally perguntasse como faria para chegar até o Chalé. Havia na estrada ainda muito gelo e ficava perigoso dirigir assim. Com certeza Mirtes iria se opor ao vê-la pegar o carro para buscar Mary na estação. Iria falar com o Sr. Duncan caso necessitasse trazer Mary para o Chalé. Gostava de Mary, afinal era sua única sobrinha, filha de Rachel, sua irmã mais nova. Existia também Gordon, mas fazia algum tempo que não o via, mesmo porque da última vez se encontrava em uma enrascada, motivo pelo qual logo precisou desaparecer. O final de semana estava prometendo. Precisava ficar só. Mas era o que menos acontecia nestas últimas semanas. Tentavam por todos os meios tirarem-na de casa, ou para ir ao cinema mais próximo, ou para assistir à última peça de teatro com recomendação garantida pelos críticos de plantão. Sem falar em alguns amigos que ficam insistentemente telefonando para, de um modo simpático saber se não precisava de nada ou mesmo sugerir passeios, visitas ou até viagens inoportunas. De um jeito educado, conseguia se safar de muitos dos convites, mas a lista de desculpas há muito havia acabado e agora já não atendia mais o telefone, delegando à Mirtes esta tarefa que de um modo satisfeito se comprazia de impedir não só.
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